Biolatina 2008
 

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18/1/2008 | Jornal Valor Econômico - diretor da ABRABI, Eduardo Emrich fala de meio ambiente e genética
   
Herança científica do século XX, os avanços na área da genética já transformam a fisionomia da ciência, da medicina e da tecnologia do século XXI ao promover impactos inimagináveis à vida das pessoas. A pesquisa do genoma traz promessas de completa alteração no eixo genético, o que garantirá a manipulação de genes para tratar de doenças graves, como câncer, artrite reumatóide e esclerose múltipla, e equacionar questões como a produção de alimentos e a degradação do meio ambiente. "Este será o século do genoma. Conhecemos cada vez mais o funcionamento dos genes", afirma Mayana Zatz, geneticista, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo (USP) e uma das maiores autoridades no assunto.
 

Boa parte das conquistas e das ofertas de futuro animador proporcionadas por essa revolução poderá ser conhecida na mostra que ocorre em São Paulo a partir de 26 de fevereiro. Com público próximo de 1 milhão de visitantes nos Estados Unidos, a exposição será aberta no Brasil no Pavilhão Armando de Arruda Pereira (ex-sede da Prodam), no Parque do Ibirapuera, onde os visitantes poderão mergulhar no mundo dos genes em três segmentos, montados em dois mil metros quadrados de área: "Grande Salão da Biodiversidade", "A Era do Genoma" e "O Brasil e a Genética dos Alimentos".
 
A exclusividade está no terceiro segmento, montado para a mostra brasileira. "O país é um importante ator da revolução genômica. Por isso, pudemos ampliar a exposição com projetos brasileiros", diz o físico e empresário Ben Sangari, do Instituto Sangari, representante oficial do Museu de História Natural de Nova York no Brasil e organizador da mostra. O instituto investiu R$ 5 milhões para a realização do evento paulistano.
 
A importância de uma mostra como essa é que o uso e o desenvolvimento da tecnologia genética são estratégicos para o futuro de qualquer nação: podem influenciar não apenas a ciência como a economia mundial, a exemplo das transformações ocorridas com a Revolução Industrial e com a revolução da eletrônica. De acordo com Fernando Reinach, diretor-executivo da Votorantim Novos Negócios, fundador e coorde-nador do Projeto Genoma Brasileiro, a forma como as nações vão apostar suas fichas na biotecnologia será capaz de definir sua posição na economia global. "É a chance de distribuir melhor a renda no mundo."
 
O Brasil não está fazendo feio nessa batalha. A ciência verde-e-amarela entrou para o mapa da genômica mundial depois do seqüenciamento da bactéria "Xyllella fastidiosa", causadora da praga do amarelinho. Concluído em 1999, o projeto foi capa da prestigiada revista científica "Nature" e destacou o trabalho de mapeamento genético do primeiro fitopatógeno - organismo causador de uma doença em uma planta economicamente importante - no mundo. "Com esse projeto, a ciência brasileira melhorou sua auto-estima, ganhou motivação e partiu para outros projetos, como o seqüenciamento da cana-de-açúcar e do genoma do câncer humano", diz Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que financiou estudos sobre a "Xyllella".

Eduardo Emrich Soares, diretor da Associação Brasileira de Empresas de Biotecnologia: "Nossa realidade é a de que a produção de alimentos e outros tipos de produtos terá de aumentar para dar conta da demanda mundial crescente"

São três grandes áreas na genética que podem ser exploradas pela pesquisa científica e o Brasil pode se destacar em duas delas. Reinach as batiza de verde, branca e vermelha. Na área verde, o foco será a produção de plantas e animais transgênicos, basicamente para o mercado de alimentação. Nesse segmento, o país é forte participante e pode despontar pela possibilidade de aplicar a tecnologia em seu território para aumentar a produtividade agropecuária. "Essa área é que chamamos de geograficamente dependente. Ou seja, depende não só de capital humano, mas de clima, área para plantio e água."
 
Já a área branca também pode beneficiar países como o Brasil, uma vez que dependerá do desenvolvimento de plantas para a fabricação de insumos para cadeias industriais. Como exemplo, Reinach cita o desenvolvimento da cultura da cana, que pode gerar o etanol como insumo para a cadeia alcoolquímica. "Do etanol pode ser extraído o etileno e dele ser fabricado o polietileno, substituindo o petróleo na produção do plástico. Existem muitos projetos nessa área", observa.
 
A vermelha está relacionada ao desenvolvimento de produtos para os seres humanos, como remédios, vacinas e tratamentos com células-tronco. Essa tecnologia será produzida em países desenvolvidos, que possuem capital humano e dinheiro para pesquisas e poderão ser distribuídas em todo o mundo.
 
Um bom exemplo é o que ocorre com a insulina recombinante, remédio que resulta da biotecnologia, fabricado pela americana Genentech, que clonou o gene da insulina humana e o reproduziu dentro de uma bactéria em 1982. A técnica de produção anterior previa a retirada de insulina de animais, como porcos, o que causava efeitos colaterais no tratamento. Com a aplicação do gene na bactéria, a substância reproduzida é idêntica à encontrada no corpo humano. "Atualmente, diabéticos no mundo inteiro dependem desse tipo de insulina", explica.
 
A atenção dos cientistas se multiplica com o número de empresas de biotecnologia que surgem para testar e criar produtos com tecnologia genética para tornar disponível no mercado. O negócio nacional na área de biotecnologia tem crescido de forma significativa e já conta com mais de 70 empresas que trabalham especificamente com alteração genética de algum tipo de organismo na fabricação de seus produtos, segundo Eduardo Emrich Soares, diretor-executivo da Associação Brasileira de Empresas de Biotecnologia.
 
 
"Temos evoluído muito e já vemos a integração de empresas com os cientistas para colocar soluções no mercado." Como exemplo, Soares cita a formação de um consórcio de empresas da área de papel e celulose para estudar o genoma do eucalipto. "A melhora genética dessa planta possibilita o aumento da produtividade e, como resultado, não há necessidade de ampliar a área plantada."
 
 
Como se vê, a revolução genômica está em curso e é possível identificá-la na utilização de plantas transgênicas e na evolução das pesquisas com células-tronco. Em relatório divulgado em 2006, o Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações Agro-biotecnológicas (Isaaa, na sigla em inglês) mostrou que as plantações biotecnológicas - que utilizam técnicas como a transgênese - devem ocupar 102 milhões de hectares em todo o mundo até 2015. O crescimento na adoção de biotecnologia é de 13% frente ao último período medido. No Brasil, a utilização de plantas modificadas cresceu 22% do total da área plantada e o grupo dos países em desenvolvimento é responsável por 40% das plantações biotecnológicas globais. "Hoje, 20% da área agrícola mundial é transgênica", afirma Reinach.
 
A sociedade tem de saber o que significa exatamente a aplicação de tecnologia genética, na opinião de Soares. "Todos estão preocupados com o meio ambiente. Mas a nossa realidade é a de que a produção de alimentos e de outros tipos de produtos terá de aumentar para dar conta da demanda mundial crescente. Se não utilizarmos tecnologia, teremos de aumentar a área de plantio."

Fonte: Jornal Valor Econômico, por Ediane Tiago.

 
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